sexta-feira, 1 de junho de 2018

O orgulho da burrice


A maioria da população possui um conhecimento limitado a respeito das coisas. Qualquer um concorda com isso. No entanto, ninguém concorda que esteja inserido dentro desta maioria. Podemos comparar esta situação com na leitura do Mito da Caverna, de Platão, que sempre lemos na crença de que somos como o prisioneiro liberto e esclarecido, e nunca como aquele que permanece na escuridão da ignorância, rejeitando quem verdadeiramente vem nos oferecer um caminho para sair da caverna das ilusões.
Descartes, sabiamente disse que “o bom senso é a coisa mais bem distribuída de todas. Todos acham que a possuem em quantidade suficiente e ninguém acha que precisa obter mais”. Certamente ele deve ter dito isto com a intenção de debochar da nossa suposição de estarmos certos em tudo o que fazemos, pois dificilmente alguém acha que precise ter mais noção das coisas do que já tem. Todos querem mais dinheiro, conhecimento, reconhecimento, tudo. Menos ter mais bom senso. Este nos parece estar sempre no nível adequado. Tanto que nos permite lançar julgamentos dos mais variados a respeito da vida alheia, política, ética, religião e muitas outras coisas.
Como se isso não bastasse, ultimamente o que se percebe em alto grau é mesmo uma certa desconfiança e até hostilidade com quem domina um conhecimento acadêmico mais avançado. Sob pretextos como “amadores fizeram a arca, especialistas construíram o Titanic” e outras bobagens do tipo, levanta-se um verdadeiro orgulho da mediocridade e da falta de profundidade no conhecimento de qualquer espécie. O autodidatismo impera alavancado pelo culto aos youtubers de vídeos de cinco minutos, onde as pessoas acreditam que após algumas sessões rápidas já estão com bagagem suficiente para enfrentar qualquer acadêmico. Aliado a isto, temos também o culto aos memes, que funcionam como argumentos autoexplicativos e suficientes para representar qualquer ideia sem a necessidade de algum tipo de elaboração mais profunda.
A academia é vista como um ambiente onde o conhecimento é utilizado como meio de ocultação da verdade, onde os malabarismos conceituais atuam como um véu na mão dos impostores com altas graduações, sempre dispostos a confundir a mente dos menos afeiçoados a essa linguagem hermética do conhecimento aprofundado com o objetivo de afastá-los do verdadeiro conhecimento sobre as coisas. Senso comum acabou virando sinônimo de conhecimento seguro e todo o aparato conceitual que as ciências construíram durante o decorrer dos séculos é encarado com desconfiança e repulsa, assim como os seus defensores e representantes.
Nesta seara de aberrações, brotam afirmações bizarras como a de que a Terra é plana, as vacinas matam, o homem nunca pisou na Lua e outras baboseiras. E na onda das explicações fáceis para os incautos que não se familiarizam muito com a profundidade das teorias científicas, arrebanham muitos seguidores e ampliam sua influência na sociedade.
Tudo isso se mostra como um claro reflexo da nossa incapacidade de educar adequadamente a população e do descaso com o conhecimento formal que é um adas principais marcas do ser humano no planeta. Enquanto o valor do saber for um consenso, mas não uma prática ostensiva em qualquer sociedade, a ignorância travestida de certeza daqueles que têm preguiça ou incapacidade de pensar continuará a achar solo fértil e mentes disponíveis em toda parte. E com isso todo o rigor lógico de qualquer ciência será obrigado a disputar espaço e passar pela vexação de ser considerado inferior em qualidade a qualquer moleque adolescente ou pseudolíder fazendo careta em frente a uma câmera e defecando preconceitos como se estivesse de posse da mais alta verdade que a humanidade já foi capaz de produzir. E com a vantagem de não precisar de muito tempo e nem esforço para se fazer entender ou ser seguido por qualquer espectador, por mais iletrado ou estúpido que este possa ser.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Os abutres e o câncer


Os abutres estão sempre prontos esperando o animal agonizante não mais oferecer condições de reação para que possam começar a devorá-lo. Isto é válido na natureza como também nas questões políticas e sociais. A diferença é que na sociedade existem muitas espécies de abutres, cada qual com o seu modo de agir e suas táticas particulares para se aproveitar do animal moribundo. Todo momento de crise evidencia a ascensão de um ou outro grupo, mais simpático a cada tipo de desgraça ou às suas causas, oferecendo alguma solução milagrosa para os problemas em troca de apoio da população.
Para arrebanhar o apoio popular é necessário criar um inimigo comum, ou pelo menos apontar um responsável pela desgraça que ali se instalou. Assim como na velha história do “bode expiatório”, na antiguidade, oferece-se a saída fácil de que aquele ser específico, ao ser imolado, carregará consigo todos os males e devolverá a paz e a tranquilidade ao grupo. Rodando o mundo vemos os imigrantes, o grupo X ou Y, a religião tal ou a falta de religião, o grupo que manifesta outros gostos ou sexualidade diferente da maioria sendo apontados como a causa das desgraças vivenciadas pela maioria.
Arrebanhado o apoio necessário, que não é tão difícil de conseguir já que todos buscam uma solução rápida para o seus problemas, esses grupos simpatizantes de todo tipo de autoritarismo, seja ele militar, religioso ou de qualquer outra matriz, passam a agir supostamente em nome daqueles que os apoiam, mas na verdade só lhes interessam os seus próprios objetivos, sua própria visão de mundo, em detrimento de qualquer outra maneira de vez o mundo que não a sua. E mesmo aqueles que os apoiaram a princípio podem vir a sofrer as consequências no futuro caso não se adequem ao seu modo de gerenciar o Estado. Isso é evidente em diversas situações e momentos históricos.
As pessoas abrem mão de sua liberdade e capacidade de escolha com muita facilidade. A covardia frente aos desafios faz com que a maioria delegue a terceiros a “parte pesada” do processo. Tomar para si as rédeas da situação, do gerenciamento conjunto das crises que de tempos em tempos enfrentamos assusta muita gente e as fazem procurar saídas mais cômodas, desde que quem assuma essa incumbência se proponha a conduzir o processo de acordo com as preferências dos representados. Desta forma, a democracia é a primeira a ser descartada, uma vez que facilmente se abre mão dela desde que o lado contrário, o opositor, seja suprimido de alguma maneira. As pessoas não gostam de negociar, preferem ganhar, mesmo que por subterfúgios.
Assim sendo, não é incomum perceber como as pessoas comuns aderem a qualquer discurso totalitário, desde que os objetivos convirjam com os seus. A possibilidade de sufocar o discurso contrário nos fascina, nos faz imaginar um mundo totalmente do nosso jeito, onde tudo é ordenado e funciona ao nosso modo. Um verdadeiro paraíso na Terra.
No entanto, como delegamos a um outro que o realize por nós, não temos a certeza de que também venhamos a ser vistos como opositores num futuro próximo. Também essa simpatia pelo sufocamento do outro e sua visão de mundo nos mostra o quanto somos adeptos da truculência e da coação, se esta nos beneficia de alguma maneira.
Para vivermos numa nação realmente democrática não podemos destruir todo tipo de pensamento contrário para deliberar apenas com quem pensa da mesma maneira que nós. Precisamos nos imbuir realmente do espírito do diálogo, da mobilização conjunta e madura, sem disputas que busquem a anulação do outro. Carecemos de entender que política diz respeito àquilo que se refere ao que é comum a todos, que tenha por objetivo a obtenção do bem comum, e não só o do grupo ao qual se faz parte. E para isso precisamos aprender a conviver com as diferenças e não aniquilá-las. Caso contrário, a semente da ditadura e do totalitarismo sempre encontrará solo fértil para se desenvolver e frutificar, como um câncer que se alastra e qualquer resquício pode dar início a uma nova infestação, contaminando todo o organismo social.

sábado, 12 de maio de 2018

Democracia é dar voz ao outro, portanto não me agrada


Não somos fãs da democracia. Aliás, nem a conhecemos o suficiente para dela fazermos uma análise adequada e dizermos o quanto ela nos agrada ou não. Conhecemos apenas uma pequena parcela de suas atribuições, que se pauta na resolução de problemas através da votação para constatar qual é a vontade da maioria. Democracia é mais do que isso, ela é uma forma ampla de ver e viver a vida em conjunto, promovendo ampla participação e a troca construtiva entre as mais diversas vertentes e opiniões divergentes.
Nossa sociedade não abre espaço de participação adequada para esse tipo de participação, mas vários setores e segmentos se apressam em dizer que essa forma de gerenciamento e condução da vida conjunta não funciona e que é preferível um poder centralizador que mantenha a ordem do que o debate exaustivo e que culmine em demasiado atendimento a interesses de outras vertentes que não as suas.
Não possuímos nenhuma instituição genuinamente democrática. Família, escola, empresas, igreja etc. todas funcionam com base em estruturas hierárquicas, com patamares e papéis bem definidos sobre onde é o lugar e qual a limitação da participação de cada um dentro da engrenagem. Nossa democracia não passa de uma votação de vez em quando para desfazer algum impasse que o consenso não alcança ou então a cada dois anos, escolhendo candidatos a cargos públicos dos quais nem nos informamos adequadamente a respeito de sua capacidade de realmente nos representar nas câmaras municipais estaduais ou federais.
Por isso, nos é tão estranha a ideia de que essa maneira de gerenciar a tal coisa pública dá conta de favorecer com que as melhores ideias sejam contempladas e a vontade popular seja atendida nas soluções adotadas. Também não somos simpáticos ao diálogo, qualquer ditadura é aceita com mais facilidade do que a possibilidade de a opinião alheia prevalecer, independentemente da ideologia política adotada. Nossa falta de habilidade discursiva e negocial salta aos olhos e expõe facilmente nossos piores instintos e nossos defeitos de caráter.
Não podemos abrir mão desse pequeno lampejo democrático que apenas debilmente começamos a vislumbrar. Pelo contrário, precisamos nos banhar de democracia e lavar toda a nossa sociedade, em todas as suas instituições e até as pequenas coisas que nos propomos a fazer todos os dias. Será um grande choque e uma experiência dolorosa por causa da nossa falta de hábito e resistência a atribuir voz e vez ao outro, principalmente às minorias. No entanto, caso não seja desta forma, fatalmente de tempos em tempos ouviremos os resmungos dos ressentidos a sonhar com algum tipo de ditadura que venha a “reconduzir o país à ordem” e salvar a nação de algum inimigo imaginário que no fundo representa só o seu medo de a voz do outro ser mais ouvida do que a sua.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Narcisos Modernos


Somos obcecados pelo nosso próprio reflexo. Adoramos nos ver, nos admirar, principalmente através dos olhos alheios. O ser humano é o seu próprio assunto favorito e as redes sociais ajudam a levar isso a um extremo até então impensável. Se antes só as figuras mais proeminentes conseguiam algum tipo de destaque perante o público, hoje em dia qualquer um pode ter os seus quinze minutos de fama se fizer algo relevante no momento oportuno.
Seguindo esse raciocínio, a grande massa se acotovela postando selfies de tudo o que faz e come, dos lugares onde vai e das ideias das quais compartilha, tudo na tentativa de dizer algo de si e de atrair algum tipo de atenção, mesmo que seja de críticos dos quais pretende se desvencilhar mediante os argumentos previamente estudados para tal ocasião.
A vida do cidadão comum é uma constante tentativa de fugir da massa, de atrair os olhares para si, muitas vezes chegando a pontos cada vez mais ousados. Prova disso são as recorrentes manifestações de preconceitos, defesa de ideias extremistas, exposição exagerada do corpo e outras tantas manifestações que se julgam capazes de causar algum retorno, seja em forma de likes ou comentários, compartilhamentos ou manifestações de desaprovação.
Quem não se mostra é esquecido, e ser esquecido é a pior das mortes. É a morte em vida. É estar presente e invisível ao mesmo tempo. É tortura demais para quem quer ser visto e reconhecido de alguma forma. Porém, como nosso espelho é o olhar do outro, tentamos chamar a sua atenção a qualquer custo, mesmo que para isso seja preciso chocar os seus olhos de alguma maneira.
Alguns conseguem em maior grau outros em menor. No entanto, assim como na mitologia grega, o final é sempre o mesmo: Narciso sempre acaba por se afogar no excesso de exposição, na contemplação ininterrupta de sua própria imagem ao ponto de se esquecer até mesmo de sua sobrevivência física. Ele é escravo da imagem que criou e a qual quer manter nos olhos daqueles que o observam. E para manter esses olhares abre mão até de si mesmo, numa tentativa final de que até mesmo sua morte possa representar um último espetáculo aos olhos dos espectadores. O espetáculo que poderá imortalizá-lo.
Mal sabe ele que os olhares são fugazes e que os espetáculos logo são substituídos por outros e outros. Todos os Narcisos morrem em vão afogados no espelho onde querem imortalizar suas imagens.