domingo, 26 de novembro de 2017

Não somos especiais

Não, não somos especiais. Bem que gostaríamos de sê-lo. Toda a nossa existência e nossas relações intersubjetivas estão muito calcadas nessa pretensão. As pessoas não gostam de se imaginar como seres comuns, submetidos às leis e regras genéricas que se aplicam a todos ou, pelo menos, à maioria. Gostamos de nos sentir diferenciados, apartados da plebe, da massa e do vulgo.
Geralmente buscamos justificativas explícitas ou tácitas para demonstrar que não nos confundimos com o resto e que aquilo que rege suas vidas não deve se aplicar a nós. E quando nos sentimos tendo o que quer que seja em comum com a maioria lutamos ardentemente para escapar a essa condição. Gostamos de privilégios, de estar em evidência, de receber tratamento VIP e de usufruir daquilo que a maioria não dispõe.
No Brasil, principalmente, há uma cultura forte no sentido de crer que a regra só se aplica a quem não consegue de alguma forma fugir dela. As leis são para os que não podem escapar ao seu cumprimento. Nos sentimos na vantagem e importantes quando conseguimos burlar alguma norma e fazer aquilo que em tese é vedado aos comuns.
E mesmo no que se refere à própria segurança as pessoas preferem se colocar no lugar da exceção e nunca da regra. Beber e dirigir, praticar sexo sem a devida proteção ou se arriscar das mais variadas formas sempre encontram como justificativa termos como “não pega nada”, “comigo não vai acontecer” e outras nesse sentido, o que reforça a tese de que as pessoas nunca se colocam no lugar da regra, onde a tendência é que quem se coloca nessas condições está em elevado risco de sofrer as mais variadas consequências.
Há que se dizer e repetir: se coloque no âmbito da regra, a exceção é a minoria, a probabilidade maior é que você dê azar e tenha que suportar as consequências de suas atitudes temerárias!
Mas não, as pessoas insistem em se colocar na posição de especiais, de exceção, odeiam aos comuns mais do que tudo e cultivam as regras e leis não porque compreendam o seu papel numa sociedade justa e igualitária, mas sim como um marco divisório entre aqueles que podem ou não se dar o luxo de agir da maneira como querem, independentemente das imposições legais e sociais. Gostamos de burlar e transgredir, isso nos faz sentirmo-nos melhores e superiores. E todas as nossas atitudes, mesmo aquelas que parecem mais nobres sempre atuam de modo a nos fazer com que nos sintamos mais elevados e pertencentes a uma casta superior, ainda que por associação a algo maior como uma entidade sobrenatural ou uma instituição da qual almejamos partilhar o poder e a influência.
Mesmo na religião é interessante os slogans do tipo “não sou dono do mundo, mas sou filho do dono”, ou seja não mando nisso aqui, mas sou chegado da chefia, portanto sou importante também, mesmo que por tabela. Trabalho na maior empresa deste ramo, portanto também sou importante, ainda que apenas uma engrenagem na estrutura toda e partícula quase invisível nessa gigantesca máquina.
A satisfação pessoal e a busca de destaque e privilégios é de saltar aos olhos. Sonhamos e tecemos discursos a respeito de um mundo melhor, porém um mundo moldado com uma separação sempre nítida ou, pelo menos, difusa mas existente, entre nós e o resto. Um mundo que seja aprazível o suficiente e sem muitos sobressaltos, contudo sem deixar de nos oferecer uma demonstração de que nosso ego está devidamente preservado da interferência dos comuns, aqueles que existem única e exclusivamente para reafirmar o quanto somos melhores.
Não, não somos especiais. E poderíamos realizar coisas melhores e que poderiam nos conduzir a uma vida muito melhor para todos os que nessa terra habitam se nos colocássemos no patamar de iguais, de companheiros que necessitam se submeter às mesmas regras e pleitear os mesmos direitos. Um lugar onde qualquer afronta a um desvalido seria um açoite em toda a malha social, e não um fato que só tem relevância se nos atinge de forma direta ou indireta.

Enquanto não fizermos realmente da igualdade e da justiça mais do que meros discursos vazios, continuaremos sendo o que sempre fomos: uma nação de fachada, com instituições que funcionam de maneiras diferentes para cada público atendido e privilegiando alguns em detrimento de muitos, enquanto ostenta a bandeira da “res publica”. As instâncias superiores deseducam os cidadãos, os cidadãos em geral refletem em suas cotidianas versões mais simplificadas da corrupção que vemos nas esferas superiores, e a solução não parece vir de um lado e nem do outro.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Frustração

Em tempos onde só se pode divulgar o sucesso, a frustração é um sentimento que todos querem evitar. Ela nos faz recordarmos das nossas limitações, de que não somos tão bons quanto gostaríamos e nem somos capazes de vencer tanto quanto desejamos. Ela é um lembrete constante da nossa finitude, nossa incapacidade de determos o controle total sobre aquilo que se passa em nossas vidas e à nossa volta.
Nos frustramos por não obtermos tudo o que desejamos, por não vencermos todas as disputas nas quais nos envolvemos, por não obtermos o reconhecimento por aquilo que fazemos, por não termos tempo suficiente para nos dedicarmos às pessoas e às atividades que prezamos. Enfim, nos frustramos por tudo aquilo que escapa entre nossos dedos sem que sejamos capazes de segurá-lo de alguma forma.
Nos culpamos mesmo tendo em mente que muitas dessas vezes não tínhamos condições de garantir o sucesso. Nos culpamos porque de alguma forma sentimos que o resultado deveria ser diferente e não conseguimos fazer com que ele fosse da maneira como gostaríamos. Nos martirizamos mesmo sem ter certeza de que se realmente havia alguma maneira de fazer com que o desfecho fosse outro. É só olharmos para trás que aquela sensação está lá, nos perseguindo como um cachorro desobediente que, por mais que o tentemos afastar, ele sempre nos espreita ao longe. E sempre abana o rabo quando olhamos, na esperança de que desistamos de repeli-lo e resolvamos deixar com que ele caminhe ao nosso lado.
No entanto o nosso orgulho sempre é mais forte, e nos recusamos a admitir essa sombra a nos acompanhar. Tentamos transmitir uma imagem de seres completos e perfeitos, satisfeitos conosco mesmos e com a vida que levamos. Queremos ser dignos de inveja, nunca de compaixão. E como caracóis, criamos uma carapaça espessa para disfarçar o nosso frágil interior, esperando que as intempéries da vida não nos atinjam ali dentro do abrigo que para nós construímos.
Temos medo de não conseguir alcançar aquilo que desejamos. E temos ainda mais medo de não merecer alcançar aquilo que desejamos. E esse último traço é sempre marcante na frustração, a sensação de que nosso fracasso se dá por causa da nossa incapacidade ou falta de merecimento. A sensação constante de que somos os culpados pelo fracasso, que não somos bons o suficiente para que as coisas deem certo para nós. Uma parte de nós se sente vítima, a outra se sente culpada, e as duas se atacando mutuamente provocam um colapso na nossa personalidade. O que acontece daí por diante vai depender da postura de cada um. Alguns se apegam ao que encontram ao seu alcance e tentam escapar, outros se entregam e deixam que essa correnteza os leve para sabe-se lá onde.
Não fomos educados para lidar com as frustrações, talvez por isso nos seja tão penoso sair desse tipo de situação fazendo da perda algo construtivo. Isso exige um amadurecimento que leva um bom tempo para se construir. A capacidade de transmutação ainda é timidamente exercitada pelas pessoas em geral. A resiliência é uma habilidade ainda pouco desenvolvida e que não possui receita pronta para que se a adquira.

Nos falta também uma boa dose de perdão para nos aceitarmos como somos e pelos males que nos autoinfligimos. E por fim uma injeção extra de amor para que nos olhemos com compaixão e sejamos capazes de buscarmos o nosso autoaperfeiçoamento sem nos cobrarmos demais por causa das nossas limitações.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Quanto mais tenho certeza, menos quero dialogar

As convicções são inimigas do diálogo. Se alguém acredita estar imbuído de razão indiscutível a respeito de algo, dificilmente se abrirá ao diálogo. O diálogo é para quem aceita a possibilidade de verdade também no discurso do outro, quem está disposto a realmente colocar as suas convicções à prova.
É algo bastante paradoxal quando observado com maior proximidade: quanto mais óbvia parece uma verdade a alguém, menos essa pessoa está disposta a defendê-la dentro de um debate aberto, alegando que seu ponto de vista é tão nítido e claro, portanto incabível de discutir. E quem o contraria certamente renunciou à razão ou está agindo de maneira mal intencionada. Ou seja, o argumento se volta para desqualificar o oponente e não as suas ideias. O outro vira inimigo e indigno de crédito a partir do momento em que discorda em algo considerado relevante.
As pessoas confundem debate com bate-boca. Troca de argumentos, com troca de ofensas. Como se a verdade pudesse ser imposta por meio da força, da intimidação. Nossa fraca experiência democrática não nos deixa perceber que o discurso é a maneira pela qual as verdades e as concepções de mundo vão se delineando e tomando corpo, ficando visíveis aos outros e a nós mesmos. E, uma vez tomado corpo no mundo, essas concepções ficam à mercê dos olhos e ouvidos alheios, dando a eles o direito de questionar, se opor, rejeitar, validar ou não. Mas também isso deve ser feito mediante um outro discurso.
Na construção coletiva de discursos, ora convergentes, ora divergentes, a sociedade vai ganhando os seus contornos. Essa dança, algumas vezes cadenciada, outras vezes hostil constitui o núcleo saudável da disputa entre as várias pretensões de verdade que permeia a malha social.
Infelizmente, para muitos, isso impede a imposição de uma única verdade e compromete a afirmação de sua convicção particular, tida como a mais correta. E num movimento covarde para evitar o enfrentamento no campo da discussão argumentativa, lançam mão de subterfúgios para minar esses espaços de diálogo e criam mecanismos para que sua visão de mundo possa se impor por meio da força, da lei ou da tradição.
Neste cenário caótico, ainda há os que dizem que o enfrentamento armado é o único meio de criar condições para um novo cenário de democracia e diálogo. No entanto, será que aquilo que se adquiriu pela força pode se converter em um espaço de trocas discursivas respeitoso e imparcial?

Um projeto firme e duradouro só pode ser criado e mantido com base numa construção argumentativa sólida e consistente. Sólida o suficiente para se abrir ao contraditório e resistir, crescer e amadurecer com ele. Mas num cenário de disputas constantes onde o discurso quer se afirmar por outros mecanismos talvez esse projeto ainda seja um sonho distante, até mais distante do que a nossa atual geração possa ser capaz de esperar para ver.

domingo, 3 de setembro de 2017

Vício

Não nos viciamos apenas em drogas, jogos ou pessoas. Viciamos também em sensações. Principalmente em sensações. As sensações nos remetem a um sentimento de plenitude e satisfação, ou pelo menos afastam o mal estar, e isso por si só já nos causa um certo anestesiamento, um alívio para o desconforto de viver.
Vício é tudo aquilo que não conseguimos deixar de fazer. O grande triunfo do vício é nos tirar a autonomia, a nossa capacidade de agir de acordo com nossas próprias escolhas, conscientemente. Para além dos diversos males que cada vício pode causar, este é o primeiro e o principal deles. Ele tira a nossa dignidade, nossa capacidade de agir conforme aquilo que conscientemente definimos para nós. Faz com que nos tornemos autômatos, agentes que só se direcionam com o intuito de sanar aquilo que o vício nos impõe. Vai minando pouco a pouco a nossa capacidade de decidir, e nos tornamos subalternos, incapazes de ter vontade própria.
A busca daquela sensação primeira, aquela que nos tocou profundamente e nos elevou a uma outra esfera existencial, move toda a nossa ação e nos faz de todas as formas tentar resgatá-la. Aquele cheiro, o gosto, as imagens, todas as impressões que nos marcaram e, mesmo que por instantes, nos fizeram esquecer qualquer tipo de amargura que pudéssemos ter tido experimentado na vida clamam por serem trazidos a tona novamente. Queremos permanecer nesse estado paradisíaco para sempre. Não queremos o mundo real, queremos o mundo perfeito onde só aquela sensação existe, e para adentrar esse mundo acabamos por abrir mão de tudo o que nos rodeia, mesmo aquilo que algum dia pode nos ter sido tão precioso como amigos, família, trabalho, dignidade etc.
Tentamos ignorar que todo prazer é efêmero, e que a sensação uma vez experimentada não pode ser repetida da mesma forma uma segunda vez. A cada nova experiência o sabor se esvai e se torna menos intenso, e com isso nossa insatisfação aumenta mais e procuramos de alguma forma, seja pela repetição do ritual ou pela procura de substitutos algo que nos traga de volta aquele paraíso perdido e cada vez mais distante. Inútil. A experiência vivida é como a batida de um martelo cujo som se propaga cada vez mais para longe e não realiza nenhum retorno a ponto de partida a não ser em forma de eco, uma versão bem inferior do evento original.
Escapar do vício demanda uma grande dose de desapego. Implica compreender a natureza fugaz dos eventos e aprender a conviver com isso, ainda que a sensação experimentada seja por demais intensa e significativa. Na falta dessa força interior alguns subterfúgios são apontados como pontos de apoio que auxiliaram a muitos, como por exemplo a religião ou o apego aos familiares, amigos, alguém ou algo pelo qual se conseguiu desapegar do vício em função de algum tipo de bem maior. Mas para aqueles que não possuem esse vínculo tão forte ou que perderam essa capacidade não resta muito o que fazer. Se a razão e o vínculo são os dois pontos principais para a superação desse mal, percebemos que sua atuação visa enfraquecer justamente esses dois pilares da resistência do hospedeiro.
E como não sabemos qual é o nosso ponto fraco a princípio, qual a nossa propensão viciante, somos obrigados a tentar nos desvencilhar desse inimigo só depois que ele capta o nosso ponto fraco e nos ataca através dele. Na impossibilidade de viver uma existência morna e sem sobressaltos, nos atrevemos sempre para sentir a vida mais pulsante em nossas veias, e nessa hora iniciamos uma estimulante e ao mesmo tempo perigosa roleta russa com o vício. Onde, como e quando ele irá nos procurar e tentar se apossar de nós não podemos prever, nem sabemos se seremos fortes o suficiente para encará-lo de frente e vencê-lo. O que podemos fazer, mesmo sem saber se será um esforço que trará um bom retorno é tentar nos preparar para enfrentar todas essas armadilhas citadas e deixar nosso senso crítico ligado para identificar os sintomas quando eles começarem a se manifestar para que possamos combatê-los. Ou então torcer para que nossa força de vontade possa ser grande o suficiente para que consigamos procurar algum tipo de ajuda ou refúgio, quando formos severamente atacados, antes que ele nos sugue toda a capacidade de nos autodirecionar.

Preparamos nossa estratégia e nos sentamos à mesa, mas é o destino quem embaralha e distribui as cartas. Só nos resta desejar boa sorte e bons palpites para sairmos do jogo vitoriosos.