domingo, 18 de fevereiro de 2018

Viver é caminhar no escuro

A vida não vem com um manual de instruções. Bem que gostaríamos que ela viesse, mas ela não vem. Por isso passamos boa parte de nossa existência pura e simplesmente tentando achar um sentido para direcionar as nossas forças e energias. Temos necessidade de verdades, de explicações que nos pareçam indubitáveis e confiáveis para guiar os nossos passos. No entanto, a vida parece sentir prazer em nos deixar sempre com uma certa desconfiança a respeito de tudo o que nos cerca e de todas as explicações que nos são apresentadas.
Viver é caminhar no escuro, e cada explicação é uma lanterna que nos mostra uma possibilidade de sentido. Porém, cada lanterna possui uma coloração diferente e pinta o mundo que nos apresenta com nuances que não sabemos até que ponto refletem as características desse mundo ou da própria luz por ela emanada. A explicação não só desvenda a realidade, ela também a constrói a sua maneira e de acordo com a sua própria lógica. A lógica da explicação seria a mesma da realidade a qual ela tenta explicar? Dúvida cruel!
Temos que depositar nossas fichas em alguma dessas possibilidades, caso contrário não conseguimos nos organizar, nos movimentar, nos relacionar com o mundo a nossa volta. Todavia, assim como num jogo, corremos o risco de a sorte a qualquer momento nos levar essas fichas e nos deixar desamparados depois de tanto investimento em uma certa maneira de ver o mundo. O fato de tanto a palavra “ilusão” quanto “desilusão”, apesar de opostas, possuírem conotação negativa em nossa cultura nos dá uma dimensão do nosso desamparo em relação a este tema. Viver com base numa ilusão é ruim, mas perder essa ilusão e dar de cara com o absurdo também não é nem um pouco prazeroso. Rapidamente buscamos uma nova maneira de nos organizarmos no mundo e dar sentido a ele. A falta de sentido nos devora a alma. É a dor de um vazio que precisa ser preenchido a qualquer custo.
Dentre as possibilidades de respostas, as absolutistas são as mais atraentes, pois não deixam espaço para a dúvida e querem se mostrar como as únicas possíveis num ambiente onde tantas opções se apresentam. Oferecem uma garantia bastante chamativa para quem não quer ficar trocando de modelo constantemente. Entretanto, num mundo com tanta diversidade e que necessitamos conviver com as diferenças essa maneira de ver o mundo cada vez mais se torna pouco plausível e propensa a um comportamento intransigente, às vezes até violento com aqueles que não compartilham da mesma visão. Relativizar é preciso!
Por outro lado, este ato tão necessário para a boa convivência entre os diferentes pontos de vista possui como efeito colateral esvaziar um pouco da nossa convicção em nossas verdades particulares e mesmo do grupo ao qual pertencemos.

No final, aqueles que conseguem se esclarecer o suficiente percebem que sua verdade é uma escolha pessoal ou cultural, tão boa ou limitada quanto qualquer outra, mas com uma carga de afeto que a faz parecer mais aprazível e coerente que as demais. Essa forma de ver as coisas nos faz sermos mais complacentes com as verdades alheias, mas também nos deixa mais inseguros quanto às nossas próprias verdades. Talvez seja o preço a se pagar para viver em paz com os outros e suas diferenças, e eles com as nossas.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Queremos companhia

As pessoas querem companhia, direta ou indiretamente. Quando falamos de nossas concepções políticas, religiosas ou o que quer que seja, queremos compará-las com as de nosso interlocutor e procurar outros que compartilhem da mesma visão de mundo que nós. Mesmo aqueles que não gostam muito da companhia alheia se sentem incomodados por existirem pessoas que pensam de maneira muito diferente da sua, ainda que não haja nenhum contato direto entre elas. A simples existência desse ser humano tão oposto já é o suficiente para causar um certo desconforto.
Dizemos muitas vezes que procuramos ter a nossa própria identidade, que não nos importamos com a opinião alheia e que cada um deve seguir a sua vida como achar melhor. No entanto, não é raro perceber o quanto as pessoas se apressam a julgar o comportamento alheio e a fazerem um discurso de como seria o mundo ideal, ignorando que isso já pressupõe uma visão a respeito de como o outro deveria se comportar para que o meu mundinho fosse mais aprazível para mim, de acordo com o meu gosto pessoal, o qual eu considero que seja o mais razoável e não apenas o meu ponto de vista particular.
Podemos até querer que o outro respeite o nosso grau de diferença em a ele. Porém, inevitavelmente queremos regular o quanto ele se diferencia em relação a nós. Não fosse assim não veríamos tantos líderes religiosos e fanáticos de todo tipo entrando para a política para tentar impor mediante leis aquilo que não conseguem fazer por força de persuasão. Não basta ter uma visão de mundo, é preciso fazer com que ela se afirme como a melhor entre todas.
Poucos são aqueles que possuem uma postura de desapego autêntico pela postura do outro ou que não queiram fazer dele uma continuação ou apoio para si. E mesmo essas pessoas precisam de um ambiente onde o outro também permita que eles sejam assim, pois se você é diferente num lugar ou numa sociedade onde a regra é a uniformização do comportamento não importa o quanto você seja tolerante, a intolerância alheia vai atingi-lo.

E mesmo essa pessoa tranquila, no fundo de sua alma pacífica e tolerante, nessa hora de sufoco por perceber que seu modo de ser não é aceito e que querem à força modificá-lo, desejará, inevitavelmente, que houvesse mais gente como ele para facilitar suportar a ideia de ser tão ímpar e incômodo aos olhos dos demais. Um companheiro pode não aliviar o peso do fardo, mas reduz um pouco a solidão de carregá-lo.

domingo, 26 de novembro de 2017

Não somos especiais

Não, não somos especiais. Bem que gostaríamos de sê-lo. Toda a nossa existência e nossas relações intersubjetivas estão muito calcadas nessa pretensão. As pessoas não gostam de se imaginar como seres comuns, submetidos às leis e regras genéricas que se aplicam a todos ou, pelo menos, à maioria. Gostamos de nos sentir diferenciados, apartados da plebe, da massa e do vulgo.
Geralmente buscamos justificativas explícitas ou tácitas para demonstrar que não nos confundimos com o resto e que aquilo que rege suas vidas não deve se aplicar a nós. E quando nos sentimos tendo o que quer que seja em comum com a maioria lutamos ardentemente para escapar a essa condição. Gostamos de privilégios, de estar em evidência, de receber tratamento VIP e de usufruir daquilo que a maioria não dispõe.
No Brasil, principalmente, há uma cultura forte no sentido de crer que a regra só se aplica a quem não consegue de alguma forma fugir dela. As leis são para os que não podem escapar ao seu cumprimento. Nos sentimos na vantagem e importantes quando conseguimos burlar alguma norma e fazer aquilo que em tese é vedado aos comuns.
E mesmo no que se refere à própria segurança as pessoas preferem se colocar no lugar da exceção e nunca da regra. Beber e dirigir, praticar sexo sem a devida proteção ou se arriscar das mais variadas formas sempre encontram como justificativa termos como “não pega nada”, “comigo não vai acontecer” e outras nesse sentido, o que reforça a tese de que as pessoas nunca se colocam no lugar da regra, onde a tendência é que quem se coloca nessas condições está em elevado risco de sofrer as mais variadas consequências.
Há que se dizer e repetir: se coloque no âmbito da regra, a exceção é a minoria, a probabilidade maior é que você dê azar e tenha que suportar as consequências de suas atitudes temerárias!
Mas não, as pessoas insistem em se colocar na posição de especiais, de exceção, odeiam aos comuns mais do que tudo e cultivam as regras e leis não porque compreendam o seu papel numa sociedade justa e igualitária, mas sim como um marco divisório entre aqueles que podem ou não se dar o luxo de agir da maneira como querem, independentemente das imposições legais e sociais. Gostamos de burlar e transgredir, isso nos faz sentirmo-nos melhores e superiores. E todas as nossas atitudes, mesmo aquelas que parecem mais nobres sempre atuam de modo a nos fazer com que nos sintamos mais elevados e pertencentes a uma casta superior, ainda que por associação a algo maior como uma entidade sobrenatural ou uma instituição da qual almejamos partilhar o poder e a influência.
Mesmo na religião é interessante os slogans do tipo “não sou dono do mundo, mas sou filho do dono”, ou seja não mando nisso aqui, mas sou chegado da chefia, portanto sou importante também, mesmo que por tabela. Trabalho na maior empresa deste ramo, portanto também sou importante, ainda que apenas uma engrenagem na estrutura toda e partícula quase invisível nessa gigantesca máquina.
A satisfação pessoal e a busca de destaque e privilégios é de saltar aos olhos. Sonhamos e tecemos discursos a respeito de um mundo melhor, porém um mundo moldado com uma separação sempre nítida ou, pelo menos, difusa mas existente, entre nós e o resto. Um mundo que seja aprazível o suficiente e sem muitos sobressaltos, contudo sem deixar de nos oferecer uma demonstração de que nosso ego está devidamente preservado da interferência dos comuns, aqueles que existem única e exclusivamente para reafirmar o quanto somos melhores.
Não, não somos especiais. E poderíamos realizar coisas melhores e que poderiam nos conduzir a uma vida muito melhor para todos os que nessa terra habitam se nos colocássemos no patamar de iguais, de companheiros que necessitam se submeter às mesmas regras e pleitear os mesmos direitos. Um lugar onde qualquer afronta a um desvalido seria um açoite em toda a malha social, e não um fato que só tem relevância se nos atinge de forma direta ou indireta.

Enquanto não fizermos realmente da igualdade e da justiça mais do que meros discursos vazios, continuaremos sendo o que sempre fomos: uma nação de fachada, com instituições que funcionam de maneiras diferentes para cada público atendido e privilegiando alguns em detrimento de muitos, enquanto ostenta a bandeira da “res publica”. As instâncias superiores deseducam os cidadãos, os cidadãos em geral refletem em suas cotidianas versões mais simplificadas da corrupção que vemos nas esferas superiores, e a solução não parece vir de um lado e nem do outro.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Frustração

Em tempos onde só se pode divulgar o sucesso, a frustração é um sentimento que todos querem evitar. Ela nos faz recordarmos das nossas limitações, de que não somos tão bons quanto gostaríamos e nem somos capazes de vencer tanto quanto desejamos. Ela é um lembrete constante da nossa finitude, nossa incapacidade de determos o controle total sobre aquilo que se passa em nossas vidas e à nossa volta.
Nos frustramos por não obtermos tudo o que desejamos, por não vencermos todas as disputas nas quais nos envolvemos, por não obtermos o reconhecimento por aquilo que fazemos, por não termos tempo suficiente para nos dedicarmos às pessoas e às atividades que prezamos. Enfim, nos frustramos por tudo aquilo que escapa entre nossos dedos sem que sejamos capazes de segurá-lo de alguma forma.
Nos culpamos mesmo tendo em mente que muitas dessas vezes não tínhamos condições de garantir o sucesso. Nos culpamos porque de alguma forma sentimos que o resultado deveria ser diferente e não conseguimos fazer com que ele fosse da maneira como gostaríamos. Nos martirizamos mesmo sem ter certeza de que se realmente havia alguma maneira de fazer com que o desfecho fosse outro. É só olharmos para trás que aquela sensação está lá, nos perseguindo como um cachorro desobediente que, por mais que o tentemos afastar, ele sempre nos espreita ao longe. E sempre abana o rabo quando olhamos, na esperança de que desistamos de repeli-lo e resolvamos deixar com que ele caminhe ao nosso lado.
No entanto o nosso orgulho sempre é mais forte, e nos recusamos a admitir essa sombra a nos acompanhar. Tentamos transmitir uma imagem de seres completos e perfeitos, satisfeitos conosco mesmos e com a vida que levamos. Queremos ser dignos de inveja, nunca de compaixão. E como caracóis, criamos uma carapaça espessa para disfarçar o nosso frágil interior, esperando que as intempéries da vida não nos atinjam ali dentro do abrigo que para nós construímos.
Temos medo de não conseguir alcançar aquilo que desejamos. E temos ainda mais medo de não merecer alcançar aquilo que desejamos. E esse último traço é sempre marcante na frustração, a sensação de que nosso fracasso se dá por causa da nossa incapacidade ou falta de merecimento. A sensação constante de que somos os culpados pelo fracasso, que não somos bons o suficiente para que as coisas deem certo para nós. Uma parte de nós se sente vítima, a outra se sente culpada, e as duas se atacando mutuamente provocam um colapso na nossa personalidade. O que acontece daí por diante vai depender da postura de cada um. Alguns se apegam ao que encontram ao seu alcance e tentam escapar, outros se entregam e deixam que essa correnteza os leve para sabe-se lá onde.
Não fomos educados para lidar com as frustrações, talvez por isso nos seja tão penoso sair desse tipo de situação fazendo da perda algo construtivo. Isso exige um amadurecimento que leva um bom tempo para se construir. A capacidade de transmutação ainda é timidamente exercitada pelas pessoas em geral. A resiliência é uma habilidade ainda pouco desenvolvida e que não possui receita pronta para que se a adquira.

Nos falta também uma boa dose de perdão para nos aceitarmos como somos e pelos males que nos autoinfligimos. E por fim uma injeção extra de amor para que nos olhemos com compaixão e sejamos capazes de buscarmos o nosso autoaperfeiçoamento sem nos cobrarmos demais por causa das nossas limitações.