segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Zona de Conforto e Zona de Risco

Abandonar a zona de conforto virou um grande jargão ultimamente, utilizado em larga escala tanto no sentido profissional quanto no pessoal. Todos os gurus, coaches e conselheiros em geral, de qualquer especialidade, recomendam. O discurso já está tão introjetado nas pessoas que ninguém mais parece discordar que isso seja algo positivo e que auxilia as pessoas a se tornarem melhores no que quer que seja. No entanto, o efetivo exercício de sair dessa zona que nos parece tão cara, por mais que a ela sempre nos refiramos negativamente, é algo bem mais complicado do que pode aparentar a princípio.
A zona de conforto é a nossa área de segurança, o conhecido, onde estamos estabelecidos e nos sentimos de certa forma no controle. Não significa que seja algo que nos faça bem ou que gostemos de estar nela, mas sim uma situação onde podemos prever os eventos, mesmo que negativos. E deter um certo grau de compreensão a respeito daquilo que se refere a nós e ao nosso mundo nos é muito agradável, dá-nos a impressão de que podemos antever os acontecimentos e, desta forma, coloca um chão firme sobre os nossos pés. Ninguém gosta de caminhar sobre um solo movediço.
Por outro lado, pode nos causar a sensação de estagnação, de angústia, de que não se está realmente vivendo. A zona de conforto, para quem possui um espírito menos acomodado pode ocasionar a sensação de que a vida não está sendo vivida em sua plenitude, que ela deveria ser mais do que o pequeno espaço onde tudo pode ser de alguma forma racionalizado e tornado previsível. E é aproveitando-se dessa insatisfação ou procurando produzi-la que atualmente se estimula tanto o abandono dessa região para alça voos mais longos e ousados.
Porém, deixar a zona de conforto é automaticamente se colocar em uma espécie de zona de risco. A zona de risco é a situação em que o conforto é abandonada ou retirada do indivíduo. Suas certezas, sua segurança e sua forma de conceber as coisas e as relações interpessoais são colocadas em cheque e pedem alterações, na maioria das vezes bruscas e significativas. Desta forma, a intenção é permitir uma vivência mais efetiva das oscilações da vida, seu aspecto imprevisto e trágico. Aceitar essa condição é lançar no desconhecido, na aventura e no desafio.
Entretanto isso não traz apenas sensações agradáveis. Pode acarretar também a falta de referências, de pertença, de um “porto seguro”. O desamparo de quem abandonou uma segurança para a qual não pode mais voltar em busca de um objetivo que talvez não venha a alcançar. Estar em um solo que não oferece firmeza é uma tarefa que exige um grau de autocontrole e perseverança que nem todos são capazes de ter.
Por isso é fácil perceber que por mais que as pessoas sejam unânimes em dizer que seja algo positivo abandonar a zona de conforto, poucos se aventuram realmente para fora de seu espaço conhecido em busca de objetivos mais elevados. E que muitos que o fazem acabam por se perderem na travessia por falta de requisitos para concretizar tal feito. Outros ainda tentam retornar com os rabos entre as pernas para a antiga segurança, na esperança de reavê-la, amaldiçoando o dia em que se perderam em devaneios em busca de sonhos que não eram para si. Esses últimos, rebatendo os profetas da mudança, subirão também em algum palanque para dar testemunho do quanto essas ideias são perniciosas, estimulando as pessoas ao abandono do bom caminho para perseguir nuvens que simplesmente os desviarão do rumo correto.
A situação é complexa e ambas as partes possuem uma certa verdade no que dizem. A mudança constante impede vínculos efetivos e provoca uma sensação de se estar sem raízes, no campo das relações humanas isso pode ser bastante prejudicial. Já no campo científico, cognitivo e naqueles que demandam maior atitude para atingir metas e objetivos a estagnação é sinônimo de atraso, retrocesso e tende a atrapalhar a quem não se dispõe a se mobilizar.
Em geral as pessoas sofrem com esse dilema, e sofrem principalmente por não terem a habilidade de estabelecer quais são os temas em que se deve levar em consideração a zona de conforto ou a zona de risco. Se arriscam em questões em que deveriam buscar conservar o modelo, a forma consolidada, e se acomodam em situações que demandam mais atitude e a coragem de aceitar o novo. Mas no fundo ninguém pode ser cobrado além de suas limitações, a vida não vem com um manual de instruções. E ao contrário do que apregoam os gurus e coaches, as questões são bem mais difíceis de se analisar do que parecem e alcançar o equilíbrio não é tarefa que se cumpre efetivamente de primeira.

Caminhamos no escuro por uma trilha que não podemos enxergar, ouvindo vozes de todos os lados nos chamando tomar as mais variadas direções, e outras ainda nos dizendo para permanecer no mesmo lugar onde nos encontramos porque qualquer movimento é perigoso. O único método à disposição é o da “tentativa e erro”. O medo de errar gera estagnação, escolhas erradas geram também, ou então a intemperança que nos faz agir impulsivamente o tempo todo sem pesar as possíveis consequências. Nesse momento o único consolo que vem à mente é a frase do personagem Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas: “viver é um negócio perigoso”. A frase não resolve o problema, mas esclarece o contexto para quem ainda não entendeu.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O animal e a linguagem

Aristóteles definiu o ser humano como um animal racional e dotado de linguagem. A questão de ser racional já foi amplamente explorada e mesmo utilizada para colocar a nossa espécie como superior ao resto dos animais, mas o segundo aspecto da definição aristotélica ainda é pouco considerado e não goza do mesmo grau de importância atribuído ao primeiro. Para o filósofo, a linguagem permite aos homens deliberar sobre o certo e o errado, o justo e o injusto. Desta forma, a linguagem permitiria aos seres racionais trocarem percepções entre si e construírem juntos um mundo comum que pudesse trazer o convívio harmônico e, com isso, a sociedade ideal.
Infelizmente esse fator tão preponderante no ser humano não foi tratado com toda a seriedade com que se tratou a racionalidade durante todo o nosso progresso histórico. Se a racionalidade, aliada à técnica, construiu maravilhas e mesmo aberrações que ao mesmo tempo nos enchem de admiração e temor, com a linguagem parece que ainda estamos engatinhando. A utilização da comunicação como meio de deliberar de maneira dialogal, tolerante e respeitosa a respeito dos assuntos humanos ainda é uma tarefa que está longe de ser atingida com qualidade.
O que percebemos nos debates e discussões mais se assemelha a uma disputa, uma espécie de “cabo de guerra” lingüístico-gramatical do que propriamente uma construção saudável de consensos e soluções para os males que afetam a convivência. Desde os debates políticos e éticos, que interferem nas relações internacionais, até as relações entre casais, pais e filhos ou mesmo as mais simples situações cotidianas, o que se nota é que a má qualidade do diálogo e a falta de habilidade nesse quesito nos colocam sempre em vias de causar mais confusão do que resolver os problemas anteriormente postos.
Na maioria das vezes, a palavra não é usada como um meio de estabelecer alianças de forma cooperativa e elos com os nossos semelhantes, mas sim usada como arma para atingir pontos vulneráveis do nosso interlocutor, tido como adversário. O homem civilizado despreza o tacape e a lança, e agora agride e destrói com as palavras, e com isso se imagina superior aos seus antecessores. Só não percebe que está utilizando uma ferramenta altamente elaborada, porém com a intenção de causar o mesmo estrago de antes. É como ter uma máquina de última geração sendo operada por um bando de chimpanzés. “Anel de ouro em focinho de porco”, parafraseando o trecho bíblico.
Mesmo as chamadas DRs entre casais, que deveriam servir para acertar as diferenças e realinhar os objetivos comuns dessas duas pessoas, teoricamente pouca gente e mais simples de se chegar a um acordo, acabam por se tornarem um festival de acusações onde cada um só enfatiza o que está perdendo ou o quanto está cedendo, o quanto está tendo de prejuízo dentro do acordo firmado. O que era para estabelecer acordos e redirecionar metas acaba por solapar ainda mais a linha de comunicação que ali existia. Assim como praticamente em tudo o que fazemos, não sabemos desvincular também a comunicação das relações de poder com as quais lidamos com as coisas, a natureza, as outras espécies...

Resumindo: não entendemos ainda a verdadeira potencialidade da comunicação, no pouco que a entendemos ainda não somos capazes de estabelecer acordos nem entre casais ou pequenos grupos e somos chamados a enfrentar a tarefa de pensar em escala global. Precisamos tratar da nossa habilidade de nos comunicarmos com a mesma seriedade e ênfase com a qual desde o Iluminismo lidamos com a nossa racionalidade. Talvez assim consigamos a tempo uma maneira de nos entendermos e traçar rumos comuns a um planeta que não vai suportar muito tempo a nossa inabilidade de construirmos soluções conjuntas para o problema que criamos e que ao mesmo tempo não podemos resolver sozinhos e nem aprendemos a ouvir o outro. Revisitar essa parte da concepção aristotélica se tornou agora não mais um simples passeio filosófico, e sim questão de bom direcionamento das relações humanas rumo a um convívio saudável e mesmo de sobrevivência humana no planeta.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Rodrigo Hilbert e o macho vitimista


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Refletir, tarefa difícil

Nossos pensamentos nos vêm à mente mesmo sem nos darmos conta deles. Por isso, quando se trata de pensar de maneira crítica sobre as coisas, principalmente nos dias tão conturbados em que vivemos, achamos que rapidamente seremos capazes de encontrar uma saída fácil e rápida para aquilo que nos aflige. Engano. A reflexão exige um desdobramento que nem todos se encorajam realmente a fazer. Questionar é enfrentar problemas, desenterrar fantasmas e encarar nossas próprias limitações.
O homem não reflete por prazer e sim para solucionar questões que o afligem, por isso a atitude reflexiva apesar de parecer algo simples, nos causa tanto desconforto e a maioria prefere não fazê-la constantemente. Alguns a evitam a qualquer custo. Quem se dedica a essa atividade seja por hobby ou profissão é considerado um sobre-humano ou alguém com algum tipo de problema.
Desta forma, rapidamente vemos que as pessoas tendem a aceitar soluções “mágicas” oferecidas por qualquer oportunista em vez de assumir a responsabilidade pela construção lenta e conjunta das soluções que almejam. Esperam que tudo seja facilmente resolvido com o apertar de um botão ou com uma pílula mágica que faça com que os problemas se desfaçam instantaneamente.
Todo tipo de conhecimento que depende necessariamente de um exercício reflexivo mais apurado encontra muita dificuldade de ser desenvolvido e de encontrar adeptos realmente engajados em empreender tamanho esforço. Nossa cultura da facilidade sufoca todo tipo de disposição nesse sentido. Portanto, quando se fala de filosofia, por exemplo, logo se imagina belas frases de efeito, mesmo que descontextualizadas, algumas frases até ditas por poetas ou escritores de outras áreas de atuação. Uma verdadeira salada de referências esparsas e sem um eixo norteador que leve realmente a uma forma mais apurada de pensar.
A beleza dessa forma de conduzir o pensamento está justamente em acompanhar a forma que esses autores, os filósofos no caso, tiveram de abordar a realidade, sua metodologia, sua estratégia, a maneira que cada um achou ou inventou de tocar o real e daqui extrair novas formas de atribuir sentido ao mundo ou a um determinado aspecto da vida humana. Ao comparar essas diferentes maneiras de olhar e interpretar a realidade perceber a força e as limitações de cada metodologia e extrair para si uma leitura nova de mundo. Isso sim é um verdadeiro processo reflexivo.

Pode não ser o caminho mais fácil, nem de longe o é. Também não é o mais rápido e pode ocupar um tempo com o qual se poderia estar realizando uma série de outras atividades mais lucrativas ou mais reconhecidas socialmente. Mas certamente nenhuma outra nos torna mais conscientes de nós mesmos, de nossa forma de conceber o mundo e mesmo de nossas limitações pessoais, temporais, históricas e sociais. Essa atividade pode ainda não nos tornar pessoas mais felizes, como alguns pensadores antigos supunham. Entretanto, dificilmente encontraremos alguém que tenha realizado adequadamente todo o processo e se arrependa de ter chegado onde chegou ou que troque o estágio alcançado por qualquer patamar de ignorância no qual ele próprio ou outro se encontra. O fruto do conhecimento muitas vezes é amargo, no entanto ninguém abre mão de continuar saboreando-o depois de prová-lo.