domingo, 25 de junho de 2017

Sobre mitos e super-heróis

Ser alguém comum nos incomoda imensamente. Sentimos necessidade de nos sentirmos especiais e gostaríamos que os outros assim também nos vissem. Nos diluir na multidão parece ser sinônimo de aniquilação da nossa individualidade. Um duro golpe no nosso ego sempre oscilante e carente de autoafirmação.
Esta talvez seja uma das explicações para o sucesso das histórias de super-heróis desde a antiguidade. Assim como um jovem grego qualquer deveria sonhar com a possibilidade de acordar um belo dia e descobrir-se filho de um deus e que todas as suas angústias perante o mundo e sua falta de adequação ao que o cercava se devia justamente a sua estirpe elevada, sua meia-parte divina e, portanto, superior ao resto dos reles mortais dos quais ele se envergonhava de certa forma, mas que a partir de então seria motivo de inveja alheia e de admiração de todos aqueles que antes o olhavam com ar de repreensão, também os jovens atuais parecem sonhar com o dia em que se perceberão superiores e de alguma forma apartados da realidade que parece oprimi-los de diversas formas.
Das narrativas de seres mutantes, com uma genética que lhes confere super poderes, filhos de alienígenas ou mesmo pessoas que passaram por experiências que lhes conferiram aptidões diferenciadas o princípio que norteia essa lógica e que faz com que tantos se sintam atraídos por ela é o mesmo, o da transcendência do comum, da extrapolação da mediocridade mundana para um estado superior de capacidades físicas e mentais, de saber e poder mais do que o resto dos seres humanos que nos rodeiam.
A sensação de impotência e invisibilidade perante o resto das pessoas oprime de tal forma que a possibilidade, ainda que remota, de que um dia possamos nos descobrir como seres diferenciados e superiores nos seduz facilmente. E mesmo quem não se ilude com esse grau de credulidade acaba por buscar numa posição política a ideia de que está do lado correto da situação e, portanto, do lado do “bem”, ou busca numa crença religiosa o consolo de que é “filho de Deus”, portanto alguém importante no mundo e não mais um qualquer.
Quem sabe um dia não acordemos e nos demos conta de que nossos pais são os nossos pais mesmo, que não viemos de uma galáxia distante e nem nossa genética possui nada de diferente dos mais de sete bilhões de humanos que conosco dividem este pequeno planeta. Que não somos especiais e mesmo as nossas insatisfações e a sensação de impotência perante tantas situações são mais comuns do que pensamos e não são exclusivas nossas. Que a inadequação é característica da maioria das pessoas, que estamos do lado da maioria e não de um seleto grupo como julgamos frequentemente. Nesse dia talvez tenhamos a coragem de parar de olhar nossos umbigos e lancemos um autêntico olhar para o mundo ao nosso redor e aí então possamos identificar realmente nossas características divergentes e aquilo que podemos fazer para nos diferenciar e acrescentar ao mundo para evitar o nosso maior medo: passar uma vida em branco e sem sentido, esperando o dia em que seremos esquecidos totalmente por não termos sido nada que causasse uma diferença significativa na vida das pessoas e na história do planeta. Uma estrela cadente que ninguém assistiu a queda, uma árvore que caiu na mata e ninguém ouviu o barulho. Alguém que foi sem ter sido, sombra na noite escura, ser que foi nada...

Entretanto, antes de encarar esses pensamentos, preferimos cogitar que possamos ser Clark Kent ou Percy Jackson.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Tédio versus Admiração

A raiz do tédio é o enfado. Começa a entediar-se aquele para quem a vida se tornou óbvia, sem brilho e nem mistérios. Num mundo com tantas explicações e facilidades isso parece cada vez mais fácil de acontecer, as pessoas perdem o interesse por tudo com grande rapidez. A vida, as coisas, os relacionamentos, tudo se assemelha a um chiclete que em pouco tempo perde o açúcar e nos deixa com a sensação de estar mastigando uma borracha sem gosto para a qual logo procuramos um lugar para descartar.
A vida cada vez mais restrita e mesquinha favorece demais este sentimento tão prejudicial ao nosso desenvolvimento pessoal, social e mesmo cognitivo. Pessoal porque ao reduzir o mundo a um conjunto fechado de explicações e possibilidades não nos esforçamos para tornar a vida algo mais do que aquilo que ela nos apresenta, a transcender o que nos é dado e permanecemos na mesmice. Depois culpamos a existência pela nossa falta de iniciativa. Social porque impede que invistamos nas relações de maneira a construir algo melhor e duradouro, que enfrentemos as adversidades da convivência rumo a patamares mais elevados de convivência. Permanecemos egocêntricos e infantis, centrados somente em nosso mundinho pessoal, encolhendo-nos para evitarmos ocupar muito espaço e com isso favorecer com que nos pisem, da mesma forma como fazem os vermes que rastejam pelo chão. E cognitivo porque para aquele que o mundo deixou de ser misterioso não existem mais novidades, não existem dúvidas, não existe admiração. Quem não se admira não tem curiosidade. Quem não tem curiosidade não procura saber. Quem não procura saber não vive, só ocupa espaço e vegeta.
O efeito mais maléfico do tédio é o de justamente nos fazer perder a admiração pelas coisas, pelas pessoas, pela dinâmica das relações sociais em toda a sua amplitude. Entediar-se é rejeitar todo o esforço humano para construir sentido e beleza a tudo o que nos rodeia. É dar as costas a todo o legado construído pela humanidade através dos milênios e furtar-se à tarefa de dar continuidade a ela.
Quem sente tédio fechou os olhos para o mundo e para si mesmo. Um universo fora de nós e outro dentro, ainda pouco explorados e tão cheios de incógnitas a serem encaradas, sistematizadas, apreciadas... Tudo isso parece não ser mais do que a visão de uma parede branca para quem não se permite olhar com a devida atenção.
Quem perdeu o brilho do olhar se assemelha a um objeto antigo que vai ficando opaco e oxidado com o tempo. Quanto mais essa crosta vai se encalacrando em sua superfície, menos vivo o objeto parece. Para nós que tantas vezes nos fazemos realmente de objetos e também damos aos outros esse tipo de tratamento pode até mesmo parecer comum que muitos tenhamos esse fim, o de nos tornarmos embaçados e apagados por toda essas camadas que nos engessam.
Mas se é verdade que estamos no mundo para mais do que simplesmente ocuparmos espaço e perpetuar a espécie precisamos constantemente nos renovarmos e adquirirmos meios para sempre nos polirmos desta fina névoa que aos poucos sempre cisma em voltar a cair sobre nossas superfícies, até ir engrossando de tal modo a nos fazer paralisar diante da existência. E o primeiro cuidado que devemos ter é com os olhos. Quem tem a admiração nos olhos não envelhece, não se engessa, não perde o encanto para o eterno devir que o cerca.

Porém, para que essa admiração nunca se perca do nosso olhar não basta simplesmente cobrir os olhos. Há principalmente que se educar o olhar. A curiosidade sempre pronta para o espanto é o melhor colírio de todos, favorece a visão e protege contra a letargia do olhar.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Miséria humana e a crueldade naturalizada

Vivemos em uma constante sensação de prejuízo. Sempre achamos que estamos perdendo de alguma forma e que nos encontramos numa constante luta para não sermos os derrotados. Viver parece uma constante disputa entre um bando de pessoas que estão todas no fio da navalha, umas competindo com as outras num estado de “guerra de todos contra todos” para se manterem de pé, para garantirem o mínimo para a sobrevivência e um pouco de conforto, que não estão disponíveis a todos.
A miséria humana em tal cena nos coloca frente a frente com um cenário lastimável: todos perdendo e ao mesmo tempo se esforçando para estar numa situação menos degradante que a dos outros. E para isso, cada um deixa de lado o sentimento de compaixão e alteridade para fazer valer o seu próprio interesse em detrimento do dos demais, na mais firme convicção de que os outros também estão agindo desta forma, cada qual não hesitando em prejudicar o outro para não ser por ele prejudicado.
Um festival de pequenas agressões que vão pouco a pouco moldando a nossa forma de interpretar o mundo, nos situarmos nele e interagir com os outros. Pequenos veios capilares que com o tempo acabaram por se tornar o alicerce de toda a estrutura social e referência para as interações intersubjetivas. O pano de fundo onde as relações se desenrolam e encontram sustentação.
É um jogo perverso onde todos perdem, se desumanizam, mas seguem firmes na certeza de que se trata da maneira mais eficaz de não ficar para trás, de não ser soterrado pela lama do esquecimento e da desgraça. Um abismo onde todos caem juntos, mas cada um se esforça para ficar por cima, pisando sobre as cabeças dos mais fracos, na esperança de que ao tocar o fundo sejam amortecidos pelo esmagamento daqueles que ficaram por baixo.

Aqueles que sentem dor dificilmente se compadecem pela dor alheia, estão ocupados demais com as suas próprias desgraças.