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Viver é caminhar no escuro

A vida não vem com um manual de instruções. Bem que gostaríamos que ela viesse, mas ela não vem. Por isso passamos boa parte de nossa existência pura e simplesmente tentando achar um sentido para direcionar as nossas forças e energias. Temos necessidade de verdades, de explicações que nos pareçam indubitáveis e confiáveis para guiar os nossos passos. No entanto, a vida parece sentir prazer em nos deixar sempre com uma certa desconfiança a respeito de tudo o que nos cerca e de todas as explicações que nos são apresentadas. Viver é caminhar no escuro, e cada explicação é uma lanterna que nos mostra uma possibilidade de sentido. Porém, cada lanterna possui uma coloração diferente e pinta o mundo que nos apresenta com nuances que não sabemos até que ponto refletem as características desse mundo ou da própria luz por ela emanada. A explicação não só desvenda a realidade, ela também a constrói a sua maneira e de acordo com a sua própria lógica. A lógica da explicação seria a mesma da rea...

Queremos companhia

As pessoas querem companhia, direta ou indiretamente. Quando falamos de nossas concepções políticas, religiosas ou o que quer que seja, queremos compará-las com as de nosso interlocutor e procurar outros que compartilhem da mesma visão de mundo que nós. Mesmo aqueles que não gostam muito da companhia alheia se sentem incomodados por existirem pessoas que pensam de maneira muito diferente da sua, ainda que não haja nenhum contato direto entre elas. A simples existência desse ser humano tão oposto já é o suficiente para causar um certo desconforto. Dizemos muitas vezes que procuramos ter a nossa própria identidade, que não nos importamos com a opinião alheia e que cada um deve seguir a sua vida como achar melhor. No entanto, não é raro perceber o quanto as pessoas se apressam a julgar o comportamento alheio e a fazerem um discurso de como seria o mundo ideal, ignorando que isso já pressupõe uma visão a respeito de como o outro deveria se comportar para que o meu mundinho fosse mais a...

Não somos especiais

Não, não somos especiais. Bem que gostaríamos de sê-lo. Toda a nossa existência e nossas relações intersubjetivas estão muito calcadas nessa pretensão. As pessoas não gostam de se imaginar como seres comuns, submetidos às leis e regras genéricas que se aplicam a todos ou, pelo menos, à maioria. Gostamos de nos sentir diferenciados, apartados da plebe, da massa e do vulgo. Geralmente buscamos justificativas explícitas ou tácitas para demonstrar que não nos confundimos com o resto e que aquilo que rege suas vidas não deve se aplicar a nós. E quando nos sentimos tendo o que quer que seja em comum com a maioria lutamos ardentemente para escapar a essa condição. Gostamos de privilégios, de estar em evidência, de receber tratamento VIP e de usufruir daquilo que a maioria não dispõe. No Brasil, principalmente, há uma cultura forte no sentido de crer que a regra só se aplica a quem não consegue de alguma forma fugir dela. As leis são para os que não podem escapar ao seu cumprimento. Nos ...

Frustração

Em tempos onde só se pode divulgar o sucesso, a frustração é um sentimento que todos querem evitar. Ela nos faz recordarmos das nossas limitações, de que não somos tão bons quanto gostaríamos e nem somos capazes de vencer tanto quanto desejamos. Ela é um lembrete constante da nossa finitude, nossa incapacidade de determos o controle total sobre aquilo que se passa em nossas vidas e à nossa volta. Nos frustramos por não obtermos tudo o que desejamos, por não vencermos todas as disputas nas quais nos envolvemos, por não obtermos o reconhecimento por aquilo que fazemos, por não termos tempo suficiente para nos dedicarmos às pessoas e às atividades que prezamos. Enfim, nos frustramos por tudo aquilo que escapa entre nossos dedos sem que sejamos capazes de segurá-lo de alguma forma. Nos culpamos mesmo tendo em mente que muitas dessas vezes não tínhamos condições de garantir o sucesso. Nos culpamos porque de alguma forma sentimos que o resultado deveria ser diferente e não conseguimos ...

Quanto mais tenho certeza, menos quero dialogar

As convicções são inimigas do diálogo. Se alguém acredita estar imbuído de razão indiscutível a respeito de algo, dificilmente se abrirá ao diálogo. O diálogo é para quem aceita a possibilidade de verdade também no discurso do outro, quem está disposto a realmente colocar as suas convicções à prova. É algo bastante paradoxal quando observado com maior proximidade: quanto mais óbvia parece uma verdade a alguém, menos essa pessoa está disposta a defendê-la dentro de um debate aberto, alegando que seu ponto de vista é tão nítido e claro, portanto incabível de discutir. E quem o contraria certamente renunciou à razão ou está agindo de maneira mal intencionada. Ou seja, o argumento se volta para desqualificar o oponente e não as suas ideias. O outro vira inimigo e indigno de crédito a partir do momento em que discorda em algo considerado relevante. As pessoas confundem debate com bate-boca. Troca de argumentos, com troca de ofensas. Como se a verdade pudesse ser imposta por meio da fo...

Vício

Não nos viciamos apenas em drogas, jogos ou pessoas. Viciamos também em sensações. Principalmente em sensações. As sensações nos remetem a um sentimento de plenitude e satisfação, ou pelo menos afastam o mal estar, e isso por si só já nos causa um certo anestesiamento, um alívio para o desconforto de viver. Vício é tudo aquilo que não conseguimos deixar de fazer. O grande triunfo do vício é nos tirar a autonomia, a nossa capacidade de agir de acordo com nossas próprias escolhas, conscientemente. Para além dos diversos males que cada vício pode causar, este é o primeiro e o principal deles. Ele tira a nossa dignidade, nossa capacidade de agir conforme aquilo que conscientemente definimos para nós. Faz com que nos tornemos autômatos, agentes que só se direcionam com o intuito de sanar aquilo que o vício nos impõe. Vai minando pouco a pouco a nossa capacidade de decidir, e nos tornamos subalternos, incapazes de ter vontade própria. A busca daquela sensação primeira, aquela que nos t...

Onde há um motivo, tudo passa a ser permitido

A política e a religião evidenciam algumas das piores facetas do ser humano. A justificativa para viver e uma verdade indubitável na qual se amparar também acabam por definir bons motivos para matar e outros tantos para se desmerecer e hostilizar o outro. A convicção de pertencer ao lado correto, o lado do bem, o verdadeiro, tranqüiliza a mente das pessoas para as maiores barbaridades. O homem geralmente não tem medo de praticar atrocidades, ele tem medo é da consciência pesada. Havendo um bom motivo, a consciência se apascenta e ele é capaz de conviver consigo mesmo independentemente dos atos praticados. Desde os homens-bomba aos nazistas, dos supremacistas raciais aos paladinos da liberdade em geral, sejam eles de direita ou esquerda, em todos os casos o que se percebe claramente é a ilusão de verdade. Aquela ilusão que a tudo justifica, que transforma a maldade em justa motivação. Qualquer ato encontra algum tipo de justificação que se julga coerente. Obviamente existem inúmer...