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Onde há um motivo, tudo passa a ser permitido

A política e a religião evidenciam algumas das piores facetas do ser humano. A justificativa para viver e uma verdade indubitável na qual se amparar também acabam por definir bons motivos para matar e outros tantos para se desmerecer e hostilizar o outro. A convicção de pertencer ao lado correto, o lado do bem, o verdadeiro, tranqüiliza a mente das pessoas para as maiores barbaridades. O homem geralmente não tem medo de praticar atrocidades, ele tem medo é da consciência pesada. Havendo um bom motivo, a consciência se apascenta e ele é capaz de conviver consigo mesmo independentemente dos atos praticados. Desde os homens-bomba aos nazistas, dos supremacistas raciais aos paladinos da liberdade em geral, sejam eles de direita ou esquerda, em todos os casos o que se percebe claramente é a ilusão de verdade. Aquela ilusão que a tudo justifica, que transforma a maldade em justa motivação. Qualquer ato encontra algum tipo de justificação que se julga coerente. Obviamente existem inúmer...

Zona de Conforto e Zona de Risco

Abandonar a zona de conforto virou um grande jargão ultimamente, utilizado em larga escala tanto no sentido profissional quanto no pessoal. Todos os gurus, coaches e conselheiros em geral, de qualquer especialidade, recomendam. O discurso já está tão introjetado nas pessoas que ninguém mais parece discordar que isso seja algo positivo e que auxilia as pessoas a se tornarem melhores no que quer que seja. No entanto, o efetivo exercício de sair dessa zona que nos parece tão cara, por mais que a ela sempre nos refiramos negativamente, é algo bem mais complicado do que pode aparentar a princípio. A zona de conforto é a nossa área de segurança, o conhecido, onde estamos estabelecidos e nos sentimos de certa forma no controle. Não significa que seja algo que nos faça bem ou que gostemos de estar nela, mas sim uma situação onde podemos prever os eventos, mesmo que negativos. E deter um certo grau de compreensão a respeito daquilo que se refere a nós e ao nosso mundo nos é muito agradável,...

O animal e a linguagem

Aristóteles definiu o ser humano como um animal racional e dotado de linguagem. A questão de ser racional já foi amplamente explorada e mesmo utilizada para colocar a nossa espécie como superior ao resto dos animais, mas o segundo aspecto da definição aristotélica ainda é pouco considerado e não goza do mesmo grau de importância atribuído ao primeiro. Para o filósofo, a linguagem permite aos homens deliberar sobre o certo e o errado, o justo e o injusto. Desta forma, a linguagem permitiria aos seres racionais trocarem percepções entre si e construírem juntos um mundo comum que pudesse trazer o convívio harmônico e, com isso, a sociedade ideal. Infelizmente esse fator tão preponderante no ser humano não foi tratado com toda a seriedade com que se tratou a racionalidade durante todo o nosso progresso histórico. Se a racionalidade, aliada à técnica, construiu maravilhas e mesmo aberrações que ao mesmo tempo nos enchem de admiração e temor, com a linguagem parece que ainda estamos enga...

Rodrigo Hilbert e o macho vitimista

Refletir, tarefa difícil

Nossos pensamentos nos vêm à mente mesmo sem nos darmos conta deles. Por isso, quando se trata de pensar de maneira crítica sobre as coisas, principalmente nos dias tão conturbados em que vivemos, achamos que rapidamente seremos capazes de encontrar uma saída fácil e rápida para aquilo que nos aflige. Engano. A reflexão exige um desdobramento que nem todos se encorajam realmente a fazer. Questionar é enfrentar problemas, desenterrar fantasmas e encarar nossas próprias limitações. O homem não reflete por prazer e sim para solucionar questões que o afligem, por isso a atitude reflexiva apesar de parecer algo simples, nos causa tanto desconforto e a maioria prefere não fazê-la constantemente. Alguns a evitam a qualquer custo. Quem se dedica a essa atividade seja por hobby ou profissão é considerado um sobre-humano ou alguém com algum tipo de problema. Desta forma, rapidamente vemos que as pessoas tendem a aceitar soluções “mágicas” oferecidas por qualquer oportunista em vez de assum...

A teoria da evolução e o nosso orgulho ferido

Charles Darwin deu um verdadeiro tiro no nosso orgulho ao propor a teoria da evolução das espécies. Pensar que não possuímos uma origem divina ou totalmente separada do resto dos animais que habitam este planeta nos incomoda imensamente. Não queremos nos comparar com o resto dos seres com quem convivemos, a não ser para confirmar a nossa superioridade. A modernidade através de Descartes cunhou o termo “ser racional” para definir o ser humano, substituindo o termo aristotélico “animal racional”, que já conferia a nós uma certa diferenciação em relação aos outros animais, mas ainda nos conservando entre eles. A palavra SER nos coloca num degrau mais elevado, faz parecer que quando se fala do ser humano não nos referimos a nenhum animal como os outros, mas de uma entidade imaterial. Algo que possui um corpo parecido com os demais, no entanto sua verdadeira essência está em algo mais elevado, em sua alma, sua intelectualidade etérea e inacessível ao restante das espécies do planeta. ...

Sobre mitos e super-heróis

Ser alguém comum nos incomoda imensamente. Sentimos necessidade de nos sentirmos especiais e gostaríamos que os outros assim também nos vissem. Nos diluir na multidão parece ser sinônimo de aniquilação da nossa individualidade. Um duro golpe no nosso ego sempre oscilante e carente de autoafirmação. Esta talvez seja uma das explicações para o sucesso das histórias de super-heróis desde a antiguidade. Assim como um jovem grego qualquer deveria sonhar com a possibilidade de acordar um belo dia e descobrir-se filho de um deus e que todas as suas angústias perante o mundo e sua falta de adequação ao que o cercava se devia justamente a sua estirpe elevada, sua meia-parte divina e, portanto, superior ao resto dos reles mortais dos quais ele se envergonhava de certa forma, mas que a partir de então seria motivo de inveja alheia e de admiração de todos aqueles que antes o olhavam com ar de repreensão, também os jovens atuais parecem sonhar com o dia em que se perceberão superiores e de algu...