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Nossa suposta liberdade de expressão

Vivemos em um país que se orgulha de ser multicultural, multirracial, multirreligioso e que, portanto, propicia uma conivência pacífica e harmoniosa entre os mais variados grupos, favorecendo assim a tolerância e a liberdade de expressão. Mas não é preciso ir muito longe para nos darmos conta de que essa suposta liberdade não passa de uma fachada muito superficial e mal disfarçada. A liberdade de expressão só é bem vista e tolerada pacificamente enquanto não se desvia demais das visões predominantes em nossa sociedade. Aquilo que o nosso senso comum já tem como algo correto é assimilado e repetido sem nenhuma tentativa de refutação, mas aquelas opiniões que escapam do pensamento corrente são rechaçadas com escárnio, arrogância e por vezes até mesmo com violência pelos grupos predominantes. Se alguém demonstra publicamente que é cristão, dificilmente achará quem lhe chame a atenção por sua postura ou que tome providências para impedir que sua atitude. Porém, se alguém tenta publicamen...

O amor que mata

Em tempos em que a todo momento aparecem novas notícias de pessoas que ferem e muitas vezes acabam por matar seus ex-companheiros, principalmente homens que matam suas ex-mulheres e namoradas, alguns questionamentos começam a martelar em nossas mentes: Esse comportamento pode ser considerado mesmo uma consequência do amor? O que leva alguém a cometer um ato deste porte simplesmente por uma ruptura num laço afetivo? A quebra de um vínculo afetivo justifica atitudes deste tipo? O que estaria por trás deste tipo de atitude? Em primeiro lugar, percebemos claramente que existe em nossa sociedade uma ideia distorcida de que o amor é ou doação total e irrestrita, ou achar alguém que te complete e te traga tudo aquilo que falte na sua vida. Aí mora a raiz de todos os problemas, pois quando se considera que amar é se doar totalmente e sem restrições, acaba-se por ceder tudo ao outro e desculpar todo o tipo de deslize e agressão por ele realizada. Assim como a visão de que a pessoa amada é aque...

Relacionamentos: jogos de prazer e jogos de poder

Tudo sempre começa muito bem. São as trocas de carícias, elogios e gentilezas; são os passeios de mãos dadas e as juras de amor eterno e fidelidade até que a morte os separe e tudo o mais. Todo mundo já passou por essas experiências ou, pelo menos, já as presenciou alguma vez a vida. A maioria dos relacionamentos que estão começando possui esta base comum. Porém, logo alguém certamente há de ressaltar que isto é típico do começo, e que rapidamente este tipo de comportamento dará lugar a um outro, também muito usual entre os casais, de transformarem a própria vida e da do outro em um verdadeiro inferno. As boas atitudes cedem a vez à insensibilidade e ao desrespeito mútuo. Tudo que havia de bonito parece ruir e escoar aos poucos para fora da relação. E o interessante é que os que isso presenciam já esperam por este desfecho, ou seja, a ideia corrente sobre os relacionamentos é que eles são uma coisa bonita, no entanto fadados a um fim deprimente. Uma espécie de tragédia anunciada. É di...

Vivendo de passado

É interessante perceber como boa parte das pessoas ao sentirem-se oprimidas ou receosas quanto ao presente ou ao futuro sempre acabam por se refugiar no passado. O futuro é incerto, o presente muitas vezes é desfavorável, mas o passado já aconteceu, não pode mais voltar, e quando ele não nos traz boas recordações pode facilmente ser moldado consciente ou inconscientemente para se adequar às nossas expectativas e nos parecer melhor do que foi realmente. Refugiar-se no passado oferece segurança e consolo para aqueles que têm medo de encarar a vida e seus percalços, pois no passado encontram uma zona de conforto, onde os acontecimentos desagradáveis podem ser repensados e melhorados de forma a parecer que não foram tão ruins assim, que serviram de aprendizado, que de alguma forma se justificam e que o passado foi bem melhor do que os dias atuais ou mais sólido do que as perspectivas voláteis do futuro. Com base nessa forma de pensar passam a exaltar os antigos amores, o comportamento do...

O que querem os alunos da USP?

Semana passada presenciamos um fato bastante curioso: Um grupo de estudantes da USP entrou em confronto com a polícia militar nos arredores da faculdade e depois tomaram a reitoria em sinal de protesto. Entretanto, os motivos dessa agitação toda e o mérito da atitude em questão não foram tomados como objeto de debate em nenhuma emissora que eu me recorde. Quais foram os verdadeiros motivos que levaram a toda essa confusão? Ao que parece, e pelo menos até o momento não foi divulgado nem pelas emissoras de TV e nem pelos próprios estudantes argumentos melhores que estes, a confusão se deu porque três estudantes do campus em questão foram abordados pelos policiais militares e foi constatado que os mesmos portavam maconha. Autuados, seriam levados à delegacia para assinarem um termo relatando o fato e seriam liberados. Os colegas, não querendo que esse procedimento fosse realizado, enfrentaram a polícia e iniciou-se a confusão. Depois do enfrentamento, alguns estudantes tomaram a reitoria...

A medida do respeito

É muito comum ouvirmos as pessoas dizerem que respeitam os outros na medida em que esses outros também as respeitam. Isso dá a elas uma noção de reciprocidade, de que o outro deve ser responsável e se conscientizar de que para ser respeitado ele deve primeiro se mostrar digno de receber esse respeito. Alguns até falam em alto e bom som: “quem não se dá ao respeito não merece ser respeitado”. Contudo, essa mentalidade não tarda a apresentar complicações. Primeiro, por estarmos sempre esperando que o outro nos demonstre motivos para que possamos dedicar-lhe algum respeito; caso contrário, não o respeitamos. Se exigimos do outro um pré-requisito além do fato dele ser um ser humano assim como nós, que provavelmente deseja ser respeitado na mesma medida em que nós desejamos e também espera de nós alguma atitude inicial considerada digna de respeito, acabamos por criar uma atitude defensiva e restritiva, que no fundo tende mais a afastar o convívio pacífico do que realmente ajudar a propor...

Sobre amores e jardins

Costumo comparar a arte de amar e se cuidar dos amores como sendo da mesma espécie dos cuidados que se deve ter ao cuidar de um jardim e das plantas em geral. Uma arte que pede uma sutileza que infelizmente poucos possuem, e, quando a possuem, facilmente a deixam escapar por entre os dedos. O amor, tal qual um jardim, tem que ser cuidado constantemente. Algumas situações pedem um cuidado maior do que outras, assim como determinadas plantas são mais sensíveis do que as demais. Qualquer imprevisto ou choque brusco pode botar uma planta a perder, do mesmo modo que um amor pode ser abalado e perecer por qualquer dano, descuido ou intempéries diversas. Dar a cada planta aquilo que ela necessita e no momento em que necessita só pode ser tarefa para aquele que está em constante contato com ela, que a percebe, intui suas vontades, reconhece suas mais variadas nuances e no tempo certo aplica o remédio, coloca-lhe o adubo, molha suas raízes e folhas. Da mesma maneira, aquele que consegue mant...