Pular para o conteúdo principal

O Eu e o Outro

Nossa busca pelo outro é tão intensa quanto nossa repulsa por ele. Somos seres que gostam de companhia, de estar próximos a outros e com eles trocar experiências em todos os sentidos. Porém, a presença do outro nos remete ao encontro conosco mesmos e com todas as características que só ele é capaz de nos apontar. Características que nem sempre gostaríamos de reconhecer em nós mesmos.
O outro também nos força a tentar nos aprofundar na arte da convivência, de estabelecer linhas de comportamento e conduta para que todos passam coabitar minimamente em paz no espaço comum. E dadas as inúmeras divergências que as pessoas apresentam entre si não é preciso dizer o quanto esse esforço até hoje ainda não colheu todos os frutos que desejava a princípio e parece que ainda está longe de fazê-lo. Esta ainda continua sendo a tarefa hercúlea da ética.
Nosso Eu ainda tão centrado em si tem dificuldade de estabelecer mecanismos de convivência em que todos possam caber de maneira igualitária. E a desconfiança em relação ao outro faz com que todos sempre se posicionem na defensiva, esperando primeiramente que o outro se desarme e tome a iniciativa antes de também tomar essa atitude. E nessa espera cada um acaba por se convencer de que o outro não tomará essa atitude e que a melhor saída é se armar ainda mais para evitar um iminente prejuízo, um evidente ataque por parte do outro, ao qual não se conhece totalmente e que por isso mesmo se deve temer e antecipar a atitude hostil.

Nossa postura sempre negativa e baseada na desconfiança mútua impede as ações cooperativas e qualquer condição para a alteridade. Somos seres que andam sempre com pedras nas mãos e o semblante fechado para evitar a agressividade alheia, na esperança de que o outro nos enxergue a fundo e nos ofereça rosas.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A falácia da valorização da educação

Acho que devo começar esclarecendo aos que desconhecem o sentido da palavra falácia. Falácia, segundo a lógica, é um tipo de raciocínio que induz ao erro, faz parecer verdadeiro aquilo que não é. No que tange a educação então, podemos percebê-la muitas vezes a povoar os discursos desde ministros, secretários de educação e até mesmo dos próprios professores e sociedade em geral. Quero me deter, porém, apenas nos últimos acontecimentos que me chamaram a atenção. Reportagens em vários telejornais e entrevistas com especialistas A, B e C sobre como melhorar a educação no país e etc. tentando demonstrar o óbvio, a coisa vai de mal a pior e a tendência não é das melhores: profissionais abandonando a carreira do magistério, poucas procura pelos cursos de licenciatura, salários baixos, condições de trabalho precárias e perigosas e por aí vai... Alguns esboços no sentido de reverter essa situação, ainda que muito tímidas, estão começando a surgir, porém, nota-se, para um bom entendedor, que a...

O amor ao outro e a falta de amor próprio

É muito comum ouvirmos as pessoas que buscam um relacionamento amoroso dizer que procuram “alguém que as façam felizes”, a sua “outra metade”, “sua alma gêmea” ou algo assim. Isso tudo supõe uma incompletude por parte de quem busca, pois quem quer sua outra metade é porque se sente somente “meio” e não algo inteiro, assim como quem busca alguém que a faça feliz indiretamente diz que por si só não consegue ser feliz, não consegue dar felicidade a si mesma. A “alma gêmea” é um pouco ainda mais complexa, porque supõe que exista alguém que seja uma parte de nós andando por aí, e que quando a encontrarmos seremos plenos em todos os sentidos, visto que essa pessoa nos compreenderá e nos satisfará completamente, pois sendo parte de nós, irá nos compreender tanto quanto nós mesmos, ou até melhor, e não nos decepcionará de forma alguma. Porém, alguém que não consegue dar a si mesmo todo tipo de satisfação ou felicidade, dificilmente encontrará outro que o faça. E fazer do outro o responsável p...

O paradoxo do tempo livre

O tempo todo somos bombardeados pelas propagandas que nos oferecem produtos que prometem facilitar a nossa vida, economizar tempo nas tarefas diárias e nos proporcionar mais tempo livre. De fato, diversos deles realmente encurtam em muito o tempo que gastaríamos nas mais variadas atividades cotidianas que realizamos. Mas então o tempo livre que nos sobra, empregamos em quê? Por mais que tenhamos tempo disponível, nunca encontramos o suficiente para fazer tudo aquilo que gostaríamos. O tempo vem se encurtando, como diriam alguns? Creio que não, prefiro acreditar que quanto mais tempo livre temos, mais o utilizamos em atividades que o consomem e fazem com que ele não seja mais “livre”. Temos atualmente uma verdadeira compulsão por “ocupar o tempo livre”, fazer desse tempo algo produtivo, espaço de lazer, de trabalho, de especialização e muitas outras coisas. Com isso, o tempo que era livre se torna um tempo de trabalho, de ocupação da mente e do corpo em algum tipo de atividade que o t...