Observando-se a contradição que parece existir quando se pensa em uma vida feliz e realizada, a saber, a vontade de se acessar um estágio de plenitude, realização e tranquilidade e, ao mesmo tempo, perceber o quanto nos entediamos rapidamente quando atingimos algo que desejávamos ou a rapidez com a qual substituímos um objetivo alcançado por outro ainda por atingir.
Alcançar o meio-termo não é fácil e muitas vezes acabamos nem mesmo aproveitando as conquistas obtidas, perdendo assim a capacidade de nos alegrar com os nossos próprios êxitos e vivendo sempre em busca daquilo que não possuímos, desperdiçando o que temos nas mãos em virtude do que sempre está por vir e que talvez nunca chegue.
Talvez, pensando nas premissas dadas, possamos concluir, percebendo que a vida é um constante processo e que sempre teremos mais e mais atividades a realizar, metas a perseguir, até o fim de nossos dias, que a felicidade seria ter a impressão de que, apesar dos percalços, estamos seguindo o “nosso” caminho, aquele que nos realiza enquanto seres humanos únicos e individuais. Também aquele que é capaz de conciliar os mais diversos âmbitos de nossos interesses, como família, trabalho, amizades, lazer, dentre outros, pois se alguém trabalha em algo que gosta, porém este emprego não é capaz de satisfazer as necessidades de sua família ou as suas próprias provavelmente não se sentirá bem, e o mesmo se poderia dizer daqueles que realizam alguma atividade lucrativa, porém que não lhe satisfaz pessoalmente.
À primeira vista parece uma espécie de utopia tentar conciliar esses fatores objetivos e subjetivos, a sensação de bem estar, o retorno financeiro e a percepção intuitiva de que se está no caminho correto. Uma definição bem pouco científica, mas quando se fala de um tema tão escorregadio como esse, fica difícil manter-se naquilo que é estritamente racional ou demonstrável. Por isso, ainda que incerto da validade universal deste conceito, essa ideia é a que mais parece coerente com uma vida que se possa definir como sendo autenticamente feliz.
Não nos viciamos apenas em drogas, jogos ou pessoas. Viciamos também em sensações. Principalmente em sensações. As sensações nos remetem a um sentimento de plenitude e satisfação, ou pelo menos afastam o mal estar, e isso por si só já nos causa um certo anestesiamento, um alívio para o desconforto de viver. Vício é tudo aquilo que não conseguimos deixar de fazer. O grande triunfo do vício é nos tirar a autonomia, a nossa capacidade de agir de acordo com nossas próprias escolhas, conscientemente. Para além dos diversos males que cada vício pode causar, este é o primeiro e o principal deles. Ele tira a nossa dignidade, nossa capacidade de agir conforme aquilo que conscientemente definimos para nós. Faz com que nos tornemos autômatos, agentes que só se direcionam com o intuito de sanar aquilo que o vício nos impõe. Vai minando pouco a pouco a nossa capacidade de decidir, e nos tornamos subalternos, incapazes de ter vontade própria. A busca daquela sensação primeira, aquela que nos t...
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