Pular para o conteúdo principal

A gaiola do gênero

Afinal, qual é a verdadeira diferença entre o homem e a mulher? Fora alguns detalhes anatômicos, fica difícil determinar algumas diferença reais, que não tenha sido fruto de uma construção social. O homem é o sexo forte e a mulher o frágil? A mulher age baseada na emoção e o homem na razão? Homem não chora? Será que esses conceitos não nos foram incutidos por uma pressão discursiva milenar, oriunda de uma visão determinada e reducionista do ser humano em vez de observações imparciais e rigorosas acerca do verdadeiro comportamento desses dois representantes da raça humana? Não precisamos ir muito longe para perceber que a resposta está bastante clara: não sabemos muito sobre nossas reais diferenças, o que sabemos foi o que nos enfiaram na cabeça através dos mais variados meios (televisão, família, cultura, religião, etc...)
A noção de sexo forte ou frágil é bastante precária, pois se procuramos nos informar sobre o sentido da palavra força, ela indica a capacidade de mobilizar algo ou alguém para atingir seus objetivos, e não necessariamente o uso da coação física ou da brutalidade. Nesse aspecto, a mulher sempre se mostra tão eficiente ou até mais do que o homem, visto que muitas vezes ela o leva a fazer o que ela quer, acreditando que na verdade ele está fazendo o que ele próprio quer fazer. Somente são maneiras diferentes de força, mas os dois se mobilizam e atingem seus objetivos. Claro que na nossa sociedade patriarcal o feminino está sempre relegado ao segundo plano, e este é sempre colocado como inferior.
Outra coisa que sempre questiono é o fato de se achar que o homem é mais racional do que a mulher. Talvez ele seja mais instintivo, racional não sei. Não vejo nada de racional em alguém que está com a namorada do lado ficar babando e “secando” a bunda de alguma gostosona que passa por ele, sempre levando a discussões, beliscões e outras desastrosas que sempre ocorrem, pois sua namorada percebe prontamente o seu comportamento. Isso não é nada racional, racional seria fazer-se de santo e só olhar quando a namorada não estivesse por perto. Nesse aspecto a mulher é muito mais discreta, dificilmente é pega num comportamento desse tipo. Mas elas nunca deixam de olhar. Mais um ponto para elas.
Por outro lado, obviamente que não podemos generalizar, e ambos os sexos apresentam características que por muitas vezes se confundem e nos deixam pensativos sobre o que é característico de um sexo ou de outro. Algumas vezes, não sei se porque as coisas são assim mesmo ou porque as pessoas se acostumam com as explicações e acabam agindo de acordo com elas, notamos que as explicações dadas se refletem no mundo real. Nesse ponto as teorias que seguimos e o nosso juízo de valor a respeito da sua validade ficam bastante comprometidos.
Não quero colocar nenhum ponto final na questão, só pretendo, modestamente, colocar uma pequena pulga atrás das orelhas dos meus leitores para que aceitemos menos os argumentos solidificados e fiquemos mais atentos ao mundo que nos cerca, tentando extrair dele as noções sobre como as coisas realmente são e ocorrem. E parafraseando Kant, SAPERE AUDE!!! (ouse saber).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Vício

Não nos viciamos apenas em drogas, jogos ou pessoas. Viciamos também em sensações. Principalmente em sensações. As sensações nos remetem a um sentimento de plenitude e satisfação, ou pelo menos afastam o mal estar, e isso por si só já nos causa um certo anestesiamento, um alívio para o desconforto de viver. Vício é tudo aquilo que não conseguimos deixar de fazer. O grande triunfo do vício é nos tirar a autonomia, a nossa capacidade de agir de acordo com nossas próprias escolhas, conscientemente. Para além dos diversos males que cada vício pode causar, este é o primeiro e o principal deles. Ele tira a nossa dignidade, nossa capacidade de agir conforme aquilo que conscientemente definimos para nós. Faz com que nos tornemos autômatos, agentes que só se direcionam com o intuito de sanar aquilo que o vício nos impõe. Vai minando pouco a pouco a nossa capacidade de decidir, e nos tornamos subalternos, incapazes de ter vontade própria. A busca daquela sensação primeira, aquela que nos t...

Refletir, tarefa difícil

Nossos pensamentos nos vêm à mente mesmo sem nos darmos conta deles. Por isso, quando se trata de pensar de maneira crítica sobre as coisas, principalmente nos dias tão conturbados em que vivemos, achamos que rapidamente seremos capazes de encontrar uma saída fácil e rápida para aquilo que nos aflige. Engano. A reflexão exige um desdobramento que nem todos se encorajam realmente a fazer. Questionar é enfrentar problemas, desenterrar fantasmas e encarar nossas próprias limitações. O homem não reflete por prazer e sim para solucionar questões que o afligem, por isso a atitude reflexiva apesar de parecer algo simples, nos causa tanto desconforto e a maioria prefere não fazê-la constantemente. Alguns a evitam a qualquer custo. Quem se dedica a essa atividade seja por hobby ou profissão é considerado um sobre-humano ou alguém com algum tipo de problema. Desta forma, rapidamente vemos que as pessoas tendem a aceitar soluções “mágicas” oferecidas por qualquer oportunista em vez de assum...

O orgulho da burrice

A maioria da população possui um conhecimento limitado a respeito das coisas. Qualquer um concorda com isso. No entanto, ninguém concorda que esteja inserido dentro desta maioria. Podemos comparar esta situação com na leitura do Mito da Caverna, de Platão, que sempre lemos na crença de que somos como o prisioneiro liberto e esclarecido, e nunca como aquele que permanece na escuridão da ignorância, rejeitando quem verdadeiramente vem nos oferecer um caminho para sair da caverna das ilusões. Descartes, sabiamente disse que “o bom senso é a coisa mais bem distribuída de todas. Todos acham que a possuem em quantidade suficiente e ninguém acha que precisa obter mais”. Certamente ele deve ter dito isto com a intenção de debochar da nossa suposição de estarmos certos em tudo o que fazemos, pois dificilmente alguém acha que precise ter mais noção das coisas do que já tem. Todos querem mais dinheiro, conhecimento, reconhecimento, tudo. Menos ter mais bom senso. Este nos parece estar sempre...